Sete Poemas do Pássaro

por Orides Fontela


 

Orides Fontela (São João da Boa Vista SP, 1940 - Campos do Jordão SP, 1998). Seus primeiros poemas foram publicados no jornal O Município, em São João da Boa Vista, no ano de 1956. Teve também dois poemas publicados no Suplemento Literário de O Estado de S. Paulo em 1967. Lançou seu primeiro livro de poesia, Transposição, em 1969; em seguida publicou Helianto (1973), Alba (1983), Rosácea (1986), Trevo, 1969/1988 (1988) e Teia (1996). Orides recebeu o prêmio Jabuti de Poesia, em 1983, pelo livro Alba, e o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte, em 1996, pela publicação do livro Teia. Nas palavras de Antônio Cândido a essência da poesia de Orides é : "[…] dizer densamente muita coisa por meio de poucas, quase nenhumas palavras, organizadas numa sintaxe que parece fechar a comunicação, mas na verdade multiplica as suas possibilidades. Denso, breve, fulgurante, o seu verso é rico e quase inesgotável, convidando o leitor a voltar diversas vezes, a procurar novas dimensões e várias possibilidades de sentido." Os Sete poemas a seguir foram originalmente publicados no livro Helianto de 1973. 

 


 
 
SETE POEMAS DO PÁSSARO

 
I

O pássaro é definitivo
por isso não o procuremos:
ele nos elegerá.
 
II

Se for esta a hora do pássaro
abre-te e saberás
o instante eterno
 
III

Nunca será mais a mesma
nossa atmosfera
pois sustentamos o voo
que nos sustenta.
 
IV

O pássaro é lúcido
e nos retalha.
Sangramos, Nunca haverá
cicatrização possível
para este rumo.
 
V

Este pássaro é reto;
arquiteta o real e o real mesmo.
 
VI

Nunca saberemos
tanta pureza:
pássaro devorando-nos
enquanto o cantamos.
 
VII

Na luz do voo profundo
existiremos neste pássaro:
ele nos vive.

 
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Postado originalmente no dia 16 de Julho de 2017 às 01:54

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