Murilo Mendes: La Ninã de Los Peines

por Murilo Mendes


Murilo Mendes (1901 – 1975), foi um poeta e prosador brasileiro nascido em Juiz de Fora, MG. Lançou seu primeiro livro, Poemas, em 1930, bastante influenciado pelo Movimento Modernista. Tornou-se um expoente do surrealismo na literatura brasileira, deixando entrever traços cubistas em livros como As Metamorfoses e Mundo Enigma. Ainda flertou com a estética vanguardista em Convergência, obra claramente influenciada pelo Concretismo.
 
 
 
la niña de los peines
 
Sua voz:
Esta é a própria flecha da alma
Vertical na sua origem,
Forçada a se transformar em curvas,
Abrindo a lamentação
Que nasce no deserto anterior
E provoca à sua passagem o eco andaluz.
 
 
 
o utopista
 
Ele acredita que o chão é duro
Que todos os homens estão presos
Que há limites para a poesia
Que não há sorrisos nas crianças
Nem amor nas mulheres
Que só de pão vive o homem
Que não há um outro mundo.
 
 
 
murilo menino
 
Eu quero montar o vento em pêlo,
Força do céu, cavalo poderoso
Que viaja quando entende, noite e dia.
 
Quero ouvir a flauta sem fim do Isidoro da flauta,
Quero que o preto velho Isidoro
Dê um concerto com minhas primas ao piano,
Lá no salão azul da baronesa.
 
Quero conhecer a mãe-d'água
Que no claro do rio penteia os cabelos
Com um pente de sete cores.
 
Salve salve minha rainha,
Ó clemente ó piedosa ó doce Virgem Maria,
? Como pode uma rainha ser também advogada.
 
 
 
são francisco de assis de outro preto
(a lúcio costa)
 
Solta, suspensa no espaço,
Clara vitória da forma
E de humana geometria
Inventando um molde abstrato;
Ao mesmo tempo, segura,
Recriada na razão,
Em número, peso, medida;
Balanço de reta e curva,
Levanta a alma, ligeira,
À sua Pátria natal;
Repouso da cruz cansada,
Signo de alta brancura;
Gerado, em recorte novo,
Por um bicho rastejante,
Mestiço de sombra e luz;
Aposento da Trindade
E mais da Virgem Maria
Que se conhecem no amor;
Traslado, em pedra vivente,
Do afeto de um sumo herói
Que junta o braço do Cristo
Ao do homem seu igual.
 
 
 
perspectiva da sala de jantar
 
A filha do modesto funcionário público
dá um bruto interesse à natureza-morta
da sala pobre no subúrbio.
O vestido amarelo de organdi
distribui cheiros apetitosos de carne morena
saindo do banho com sabonete barato.
 
O ambiente parado esperava mesmo aquela vibração:
papel ordinário representando florestas com tigres,
uma Ceia onde os personagens não comem nada
a mesa com a toalha furada
a folhinha que a dona da casa segue o conselho
e o piano que eles não têm sala de visitas.
 
A menina olha longamente pro corpo dela
como se ele hoje estivesse diferente,
depois senta-se ao piano comprado a prestações
e o cachorro malandro do vizinho
toma nota dos sons com atenção.
 
 
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Postado originalmente no dia 13 de Abril de 2020 às 00:27

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