Karin Krogh em um Tríptico de Poesia

por Karin Krogh


 
Karin Krogh nasceu em Mogi das Cruzes, em 1972. Formada em Farmácia pela Universidade Federal do Maranhão, com mestrado e doutorado em Biologia Molecular pela Universidade de São Paulo. Apaixonada por livros, literatura e suas duas filhas, tornou-se contadora de histórias e publicou seu primeiro livro infantil “Dondila e Jurema” (Giostri editora) em 2014. Tem poemas publicados em diversas antologias e revistas literárias e lançou seu primeiro livro de poemas “Insídia" pela editora Patuá em 2016. 
 
 
 
 
 
Amazona
 
 
 
Entre as curvas
do cortejo fúnebre
o desejo da menina
encavalada no féretro
batia os calcanhares
com as esporas e
direcionava para a cova
o bicho manso
obedecia sem desgosto
o cardume lânguido
seguia junto em lamúrios
era hora de entrar
para serem jogadas
as últimas
flores
a última mão
de terra
o último fechar
dos olhos
 
 
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Persona non grata
 
 
 
O menino de dedos-anéis
pedras de olhares perdidos,
mordente feito gato em meia de lã
(o aceso das luzes corrói o dia
e cega até os mais fortes)
"Triste daquele que tricota a manhã e
limita nuances em cores de linha Cléa.”
Nos planaltos do esquadro bordado
coze o remendo da calça
aberto durante o salto em arame farpado e
esquece aquilo que era para ser marca.
Mantém o sangue escorrido no rasgo e
alcança a capela dos amores vencidos,
ora por todos eles,
não pede o retorno.
Que não lhe tentem,
já superou e muito o seu medo por palhaços.
Parte em viagem com o terço enrolado no braço esquerdo,
contando contas infinitas
sem se dar conta da rota escolhida.
Roga praga aos que lhe perguntam e
cospe carvão com o veneno guardado no fígado.
Deixa em paz o hálito mentolado que refresca a estrada
e o mantém sem rumo.
 
 
 
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Trabalho de parto
 
 
 
e seu tivesse
hálito de cebola
 
e seu tivesse
colostomia
 
e seu tivesse
aves nas orelhas
 
e seu tivesse
ascaris
 
e seu tivesse
no avesso do avesso
 
e se eu tivesse
olhar de rameira
 
e se eu tivesse
o peito em acrílico
 
e seu tivesse
os dedos entrelaçados
 
e seu eu tivesse
um fuzil entre as pernas
 
e se eu tivesse
vontade de arranca-lo
 
e se você tivesse
nojo da minha coluna vertebral
 
e se você lavasse
vértebra por vértebra
 
e se você transplantasse
osso por osso
 
você me encontraria
em seu umbigo?
 
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Postado originalmente no dia 10 de Agosto de 2017 às 08:54

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