A entidade dos lapsos

por Fábio Pessanha


Fábio Pessanha é poeta, doutor em Teoria Literária e mestre em Poética, ambos pela UFRJ. Publicou ensaios em periódicos sobre suas pesquisas, a respeito do sentido poético das palavras, partindo principalmente das obras de Manoel de Barros, Paulo Leminski e Virgílio de Lemos. É autor do livro A hermenêutica do mar – Um estudo sobre a poética de Virgílio de Lemos (Tempo Brasileiro, 2013) e coorganizador do livro Poética e Diálogo: Caminhos de Pensamento (Tempo Brasileiro, 2011). Assina a coluna “palavra : alucinógeno” na Revista Vício Velho. Tem poemas publicados nas revistas eletrônicas Diversos Afins, Escamandro, Ruído Manifesto, Sanduíches de realidade, Literatura & Fechadura, Gueto, Escrita Droide, Gazeta de Poesia Inédita, Mallarmargens, Contempo e na própria Vício Velho.
 
 
 
são muitas as variações para se dizer
a mesma coisa.
a casa, o pasto, a glória, o físico
compasso em que dois corpos deram adeus
ao mesmo espaço. isso nunca me aconteceu
antes, a voz
diz toda plácida seus próprios
estômagos, mesmo sem saber dos
nudes enviados em segredo para o
sagrado enredo
das profanações. muito já
se disse e sempre se repetem os fatos,
ainda que não caiba mais ninguém na ironia
dos passos. não
mais adianta correr, é sempre
a morte na praia do nado. mas
fazer o quê? viver é essa microfonia
que cega das
frases a voz, e a gente sempre
se repete para as ânsias do mundo.
 
**
 
… desde que deixei a porta aberta
e saí sem dizer nada a ninguém,
deslizes grudaram em poucos dos
meus atos. não havia quem desviasse
da rota de fuga para um raso
lago escuro, meio à deriva, em busca
de aprofundamentos. mas é assim,
as coisas mudam. quase sempre, a gente 
se perde entre os passados presentes…
 
**
 
variações de luísa
para luísa helena
 
… não sei desses outros escritos, 
mas não vi nada impublicável. 
deixa de ser medrosa e mexa
nessas letras-helenas... pois,
como você mesma escreveu
em seu insta, são essas suas
mudas, variações de luísa...
 
**
 
desde que eu não tenha
que dizer apenas
uma palavra, que não
precise deixar os pés
 
na porta desse idioma.
esse mesmo que me salva
das abstrações
futuras. ainda
 
que eu aprenda a implorar desde
antes dos meus cotovelos
e que eu muito me
sirva dos colapsos
 
dessa gente aqui
de dentro de mim,
me esforçarei pra dizer
a verdade. complicado
 
é saber que o céu
despreza a entidade
dos lapsos e a vontade
de ser mais uma existência
 
colada na idade humana 
que tem meu nome marcado
no tempo perdido
das horas erradas
 
**
 
dentro dessa casa
que se chama gente, há jardins descampados,
flores a meio dedo
do descaso, por ter deixado correr
 
solto a lábia e o emplastro.
pode dizer o que quiser, ser a trova
natalina com as
narinas dentro d’água. continuarei
 
firme a navegar
entre correntes e gentilezas. se
calcular meu nome,
ganha-me de corpo e arma, com o gatilho
 
surrado de tanto
mirar para a ponte que nos leva a quem
quiser que a foz fosse
a fonte, a nascente de um rio retido.
 
 
 
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Postado originalmente no dia 1 de Maio de 2020 às 06:07

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