Dalila Teles Veras: Seis Poemas Escolhidos

por Dalila Teles Veras


 

Dalila Teles Veras, nasceu no Funchal, Portugal (1946), reside no Brasil desde 1957. Publicou os livros: Lições de Tempo, Inventário Precoce, Elemento em Fúria, Forasteiros Registros Nordestinos, Madeira: do Vinho à Saudade, A Palavraparte, À Janela dos dias – poesia quase toda, “Vestígios”, “Poesia do Intervalo”, “Solilóquios”, “Pecados”, "Retratos Falhados", “Estranhas formas de vida”, “Solidões da memória” e “a mulher antiga” todos de poesia. No gênero crônica, é autora de “A Vida Crônica” e “As Artes do Ofício”. Em 2000 publicou Minudências, um diário literário do ano de 1999 e em 2012, Diuturnos, também um diário literário do ano 2000. Possui trabalhos (poemas, crônicas, artigos, ensaios e textos literários) publicados em jornais e revistas do país e do exterior (Folha de São Paulo, Revista Cacto, Rascunho, Suplemento Literário de Minas Gerais, Jornal Letras & Artes, Portugal, entre outros). Animadora cultural, há mais de três décadas organiza e colabora na organização de cursos, seminários e congressos. Desde 1992, dirige a Alpharrabio Livraria e Editora, em Santo André, SP, importante centro cultural, onde promove constante atividade voltada para a divulgação das artes, da literatura e o debate de ideias.
 
 

 

 


14º andar

 

 

 

 

 
 
Daqui
 
a cidade, antevista
 
sem língua alguma
 
que a possa nomear
 
(da janela
 
anti-pulo
 
anti-grito
 
anti-ar)
 
mero jogo de a(r)mar
 
 
 
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Da insaciável cobiça
 
"Gloriae et virtutis invidia est comes"
provérbio latino
 
 
Cobiço
qualquer coisa
desde que te prive
desde que te despoje
 
 
Meus olhos na tua alegria
roubam-te o riso
saqueiam teu saber
e tudo que não tenho
 
 
Nem a mim serve
este desejo só desejo
basta-me que nada seja teu
(a felicidade apenas no alheio)
 
 
 
 
_
 
 
 
 
Espelhos
 
 
Meu pai, no ocaso
Compulsivamente
fotografa
:
a flor
o jardim
o cão
a paisagem
a mobília
a casa
o carro
os filhos
os netos
ele mesmo
foto da foto
 
Aprisiona o olhar
(e admira-se)
ignorando a finitude
: frágil e derradeiro legado
 
 
 
_
 
 
 
 
Desvio
 
 
O calor desafia o outono
flores abrem-se tontas
à luz enganosa de verão
natureza violada
 
Minha mãe agoniza
(máquinas, balões, computadores,
tubos, luvas, gases, batas, relógios,
pomadas, seringas, fraldas, algodão
:
(ar)tificial saúde)
desvio de percurso
 
 
 
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miserere
(corpo em dor)
 
 
"Não queiras penas alheias,
Que as tuas chegam-te bem"
Filosofias, João Linhares Barbosa / Francisco Viana
 
 
 
 
 
seta açodada, pungitiva adaga
 
(dor, dor, dor, dor)
 
corpo em frangalhos
 
avinagrados alhos
 
dolor, ache, douleur
 
dor sem filiação lingüística
 
dor (in)verbalizável
 
 
 
duradoura dor, dura
 
dor, nervura fervente
 
dor sem trégua, dor
 
humilhante e impertinente
 
dor, invisível ao outro
 
íntima dor
 
(vergonhosa
 
experiência misantrópica)
 
 
 
nocauteado
 
vai à lona o corpo
 
paroxismo ao oitavo dia
 
 
 
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Paisagem
 
 
 
Regressar
porque se é partida e fuga
e sempre deixamos alguém à espera
É rocha e água este tempo
de areias difusas a paisagem
represada na garrafa
 
E o gênio à espera
à espera
de caridosas mãos que o desarrolhem
e o tornem eterno e faça-se a história
 
Que são os anos para quem
vive sob permanente encantamento?
Que é da existência
quando desfeita a paisagem?
 
 
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Postado originalmente no dia 18 de Agosto de 2017 às 09:01

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