A poesia que alimenta o verbo

por Anna Apolinário


Anna Apolinário nasceu em 28 de julho de 1986, sob o signo de Leão. Alquimista da palavra, escreveu os grimórios poéticos Solfejo de Eros (CBJE, 2010), Mistrais (Prêmio Literário Augusto dos Anjos, Edições Funesc, 2014), Zarabatana (Patuá, 2016), Magmáticas Medusas (Cintra/ARC Edições, 2018) e A chave selvagem do sonho (Triluna, 2020). Celebra a poesia feita por mulheres e incendeia o patriarcado através do Sarau Selváticas. Reside em João Pessoa, Paraíba.
 
 
 
Vórtex
 
Com audácia, manejar 
os gumes da fala.
Em êxtase,
no deserto da lauda
exaurir o sangue, 
signos em agudo auge. 
Incansável navalha,
na retina, exato entalhe.
 
Tensionar a entranha,
instaurar o arremate. 
Dar de comer ao verbo 
a própria carne,
o corpo doado
a tudo o que for delírio, 
demolição.
Este talento obscuro, 
infernal júbilo, 
labuta e consumição.
 
 
 
Lunando
 
Devolver à terra
A rubra cura
Vertida de meu ventre
Com reverência
Plantar centelhas
Alumiar os caminhos 
O sangue é a semente
Da purificação
O declínio das guerras
Magia e maldição.
 
 
 
Castigado Casmurro 
 
Queime meu nome 
Numa pira lisérgica 
Enquanto cortejamos 
A trombose elétrica das noites 
E a medicina maléfica dos dias 
 
A indecência de minhas cinzas 
Opiáceo subterfúgio  
Alcateia faminta 
Rasgará tua face  
Primitiva Pacífica 
 
Chacal piromaníaco
Sobre o tablado horrífico 
Tu dançarás 
 
 
 
A Pianista 
 
A tua voz de incendiar pássaros 
Traça surtos escarlates 
Na minha sanidade 
 
Ruflam solos ensolarados 
O céu erupciona  
Um pecado ruivo 
O mar sangra seus diamantes 
 
Felina ametista 
 
Um rugido índigo retine 
Nas esporas da angústia 
 
 
 
Papisa 
 
Pequeno uivo 
Em campânula catártica
Archote gravado em camafeu 
Cadência de cascavéis 
Cadafalso cardíaco  
 
Baba de gárgula 
Draga 
Olhinegros peregrinos 
 
Tigre da lascívia 
Lancina o Eremita
 
 
 
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Postado originalmente no dia 30 de Abril de 2020 às 21:44

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