Canção para os seus olhos e outros castanhos.

por Angel Cabeza


Angel Cabeza nasceu no Rio de Janeiro.Cursou Letras e Jornalismo. É poeta, cronista, coordenador editorial e produtor. Publicou Canção para os seus olhos e outros castanhos (Urutau, 2019), Sempre existe um último momento (crônicas, 2011) e Vidro de guardados (poemas, 2010). Integra as antologias O Casulo (Patuá, 2017), 29 de abril, o verso da violência (Patuá, 2015), Qasaêd lla falastin – Poemas para a Palestina (Patuá, 2013), Geração em 140 caracteres (Geração Editorial, 2012), entre outras. Possui textos publicados em diversas mídias, entre elas Correio Braziliense, A União, Odara, Vício Velho, Escrita Droide, Diversos Afins, Literatura e Fechadura, Gueto, Germina, Zunái Subversa, Eutomia, Cronópios, Cuarto Próprio (Universidade de Porto Rico), Verso Destierro (México) e Generación Espontánea (Madri).
 
 
 
Alongamento
 
Alongo os olhos
nesta manhã
e curvo a mão
sobre o teu peito:
frêmito de asas
que toma a forma
do chumbo 
da cidade.
 
 
 
Travessia
 
Teus contornos gravados
em minhas linhas
são brancos hemisférios.
Tuas cavernas
segredos de pedra e chuva.
Desconheço mapas
que revelem a longitude
dos teus caminhos.
Nada é plano ou brando.
Necessário se faz desbravar
a tormenta
enfrentar a colisão
entre casco e rocha
aceitar o coração
contra as tuas pedras
pontiagudas e o naufrágio perfeito:
imergir no vermelho espesso;
a quentura invadindo pulmões
até que a respiração se avelude
até que reste apenas o abafado
som do oceano
acariciando o sal
dos rochedos.
 
 
 
Emancipação
 
Se somos
espelhos carnificados
— imagem e semelhança —
por que devorar
tua carne
é pecado de fogo?
 
 
 
Chiado
 
Encosto meus
ouvidos no teu busto
e ouço algo de Mozart:
pulsante desespero de cordas.
 
 
 
Malpassado
 
O verbo se faz carne.
E como carnívoros
desejamos o corte malpassado,
respingando sensações e
manchando alumbramentos,
como se estivéssemos mordendo
— com ânsia e fome —
um coração encharcado
de brasa.
 
 
 
Estações
 
É inverno lá fora.
Faz sol.
Mas há um canto
escuro por dentro
infestado de corvos.
E eles bicam
o doce do seu nome,
e eles bicam
a lisa e fina membrana
da lembrança.
É inverno lá fora,
mas por dentro
uma queimadura
de plumas.
 
 
 
A primeira noite
 
A primeira noite
em que se esvaiu,
foi como se arrancassem
cirurgicamente minha pele.
Ardia o toque de sua falange
em qualquer músculo.
Sobraram-me retalhos
de coração e sangue.
A segunda noite
em que se esvaiu,
parecia-me ter ferido
o calcanhar de Aquiles.
Toda a forma reduzida
num amontoado de carvão
em brasa.
Quando se esvaiu
as demais vezes,
calei-me.
Solidifiquei minha pata,
cristalizei um ventre.
Tornei-me perito em cinzelar
a madeira que nos sobra,
em acastanhar o negro da partida.
 
Bordar flores em ossos quebrados
é tarefa de quem possui
o estômago cheio de calos.
 
 
 
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Postado originalmente no dia 29 de Abril de 2020 às 12:19

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