Age de Carvalho e o verso econômico

por Age de Carvalho


Nascido em Belém do Pará, em 1958, Age de Carvalho finalizou seus estudos no Colégio Moderno, e se formou em Arquitetura pela Universidade Federal do Pará. Foi editor da página de poesia Grápho nos jornais paraenses A Província do Pará e O Liberal de 1983 a 1985 e trabalhou também como tradutor. Contemporâneo de Max Martins, por quem nutriu grande amizade e admiração, Age desenvolveu uma linguagem poética econômica onde cada palavra é definitiva, lição aprendida de Paul Célan, outro grande mestre que teve influência significativa em sua obra. Os poemas abaixo, extraídos de várias obras e selecionados por André Merez, procuram oferecer uma visão inicial desse poeta cuja obra ainda precisa urgentemente ser devidamente estudada e resgatada, Vamos falar de Age de Carvalho e, principalmente, ler Age de Carvalho.      
 
 
 
 
CORCOVADO
à Nelci Frangipani
 
Uma última vez
antes de subirmos,
braços abertos sobre
a flora brava, aqui
em baixo, onde colho
a despedida –
o tempo
só de abraçar
o abricó-da-praia,
meu amigo,
enquanto tu, trezentas
e terrena, davas
comida aos gatos.
 
 
 
 
IN ABSENTIA
 
E: ainda uma chance —
uma pedra se refolha
para o repouso,
o instante é
sempre presença
 
Ror de erros,
recolho repetidos
o que ainda me pertence
 
 
 
 
VERMELHO
 
Tua,
de seda e feno
no transe da metáfora
a fenda soletrada-sol,
vala de luz, vocabulário
 
Tua, folhagem. O
olho
alcança o Olho,
desce aos infernos:
 
sonha o cabelo da urna,
o vermelho
da cifra, a ferida
no centro da fogueira
 
Tua, tua
 
 
 
 
SUMA
 
Quantas vezes
ainda por repetir?
 
Estão comigo, todas
de segunda mão,
não classificadas
 
ó anel
círculo mancha ervas
sombra relva irmã
estrela erro tumba
 
por companhia
 
pedra pedra pedra
 
 
 
 
FAZER COM, FAZER DE
 
Estar, entre
estrelas e pedras,
interrompido
 
         Resto de
ervas, tempo, entre dentes
detém-se
a palavra-refém,
 
 réstia.
 
 

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Postado originalmente no dia 8 de Maio de 2019 às 00:44

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