Adriana Zapparoli em fragmentos

por Adriana Zapparoli


Adriana Zapparoli é escritora, poeta e tradutora. Realizou pósdoutorado na Universidade Estadual de Campinas (SP). Seus poemas foram publicados em revistas de arte e literatura impressa e eletrônica. Publicou, entre outros, A flor da abissínia (2007), Cocatriz (2008) e Flor de Lótus (2013), todos editados pela Lumme Editor. Também é editora de conteúdo literário da revista eletrônica Zunai. Vive em Campinas (SP).
 
 
  
beatriz airada
 
I
 
viagem ao congo no rosto de quem ---
 
há 7 molares.
há 7 escaras.
há 7 haras e cavalos-marinhos.
há 7 picadas de toxina botulínica
 
e uma melancolia que se arrasta
entre a congada...
 
que, muitas vezes, nem descreve
nada além do que passa
em conflito,
 
além da malhada, poesia, além dessa mutilada lírica;
dentro de órgãos complexos
--  olhos, ouvidos,
mãos e cérebros –
 
 
II
 
penumbra, que intersilencia
o estreito, em cama profunda.
 
no peito, esse medo, a pleura e um osso.
ser balanço, cabeça
e pescoço.
 
o esteio do pescoço... um toc.
o pânico perseguitório:
- até quando?
 
 
III
 
varizes em taças
dê sorvetes.
 
fachadas estreitas, de um mundo em conta-gotas,
de orvalho, florais e floreiras.
 
as olheiras do alho
desconectam esse dharma.
 
o convívio com o pensamento alheio:
rótula, mágoa e mandala.
 
a tacha em pássaro revolto:
- sua membrana celular...
 
 
IV
 
doenças e cabeça,
entre meadas, em casta de leite.
 
a cidra, pela manhã, bem cedo,
sussurra um sono ineficiente.
 
a mesma cisma, o aviso,
quase um apelo: - tente
 
 
V.
 
se o copo de vinho tinto:
energético em aversão
 
inibidores de recaptação
são serotoninérgicos.
 
os efeitos do insucesso,
o abuso, da opção: o risco.
 
 
VI
 
sibutramina, constipação, taquicardia
o aumento da pressão arterial.
 
na cortina de voal, um duplo-cego,
multicêntrico, um eco
 
redigindo os pensamentos temporários.
 
 
VII
 
medicamentoso:
o surto randomizado
cefaléia, o susto.
 
na esteatorréia das vozes
abrindo o ovo
de páscoa.
 
 
IX
 
ocupam-se dos neurônios
a noite, a boca seca
e o furo na parede.
 
ocultos, os vômitos
habitam a tinta,
a textura laranja,
a janela.
 
 
X
 
insônia, a influência estranha
da anfepramona em verso.
 
obteve êxito,
as paisagens em colchas,
o desenho do nariz
 
as entranhas de beatriz-
a louca airada,
 
num copo de suco.
 
 
 
rubro cântico
 
figurativo descanso
uma estrutura rubra
um olho-de-gato
equivocado
refletindo luz
 
intuitiva a poesia
 
num escuro
duma estrada
mal sinalizada
 
 
 
num momento
 
roer
a unha telúrica
do tempo
 
saltar
para dentro
da vulva
 
no movimento
da válvula tricúspide
 
tugúrio
 
o tule abafa
o trilo da úvula
 
no dedo o gosto da uva úmida
 
 

estampa-predação de olhos milimétricos


1.

e esta dor ceifando a cruz de domingo
buscas silenciosas e vertigens,

vento e calor espalhados neste domínio
exaltando a paz enquanto se extingue

o silêncio

daquele sonho onde se via um ofídio
caramelado (em amarelo) dizendo:

- um menino negro, nos braços de seu pai
de óculos fúcsia... -

e, aliás,

um ser não de todo estranho,
mas com um poder que ainda

desconheço, em plano
decúbito.



2.

augure,

veja o horto de petúnia,
por dentro: é decomposto

entre a planta e o cabelo

há o defunto, em arvoredo
de coisas tolas

por um momento
que se intitula

apreço, por pérolas
e unhas

de horrores, em calda de pêssego-
de-aparta-caroço.

as múmias,

deste seu desassossego
toma o gosto

das ostras, impresso em gota
límpida,

naquele panfleto
que vemos morno.



3.

por um abocate rosa-choque
é apartada a arteríola

em fala de sintonia fina,
em cálculo díspar

que reafirma, o contra-ataque
da melancolia de cidade Basca.

por um anfíbio, cabisbaixo
de rotina, de vigiar a sacada.

há estrada, a paisagem
desenhada pelo filhote

é bucólica, pele e cerca
em húmus, pedalando
a seca,

a dorê...
entre, doze,
flores...


4.

seria, a ponta do dedo um formigueiro
ou melhor, dizendo, Myrmecia
nigrocinta, penteando o seu sossego?

rasteira, uma formiga de renda
em barco de areia
e stévia

classifica-se caótica,
entre o fastio da sereia
e naquilo que reverbera
o Filo, Arthropoda.

cáustica, é a culpa

é o presídio que insinua
a rota, o fastígio
da entrada insecta,

um formiguilho
de agruras e chispas
todas,

trancadas.


5.

à parede em diástole pelos pés e dedos de prata.
manco, se portando como louco de intrigas e cílios, de ouro
que piscam, híbridos; os espaços e sítios da lona cor de cadarço.
escondia-se naqueles abraços, entre os interstícios minados à lenha, símile corte, e inseminação de perdigotos em escarro de porco;
os dedos continham faces arrebatadas, pela prata d'encantos de unhas manicuradas que sangravam.


6.

os macacos ejetando os homens de plástico para o espetáculo. recitavam em troca de aplauso de um (Aotus azarai infulatus) macaco da noite, de região neotropical e de origem irrefutável. um macaco de língua eclética e noturna lendo entre ponto e vírgula os escritos, manifestos e contos daquele homem que saltava na mímica das páginas. e
o homem-guepardo, atento, as conversas que transpassam galerias, sombras e tintas, cinzas-orelhas da terra de guaira, ou da dinastia filipina, ninava, entre os braços do "abaporu" de tarsila.


7.

n'zambi, ente infinito existente por si
em pé de abricó, de beijo damascado,
do fruto em pó de sorriso,
o mistério no empório do peito de
brônquio décor,
por você...


8.

pelo nojo de encomendas, de falas e de víboras que
assistem ligadas em tomadas.
o enjôo, arrebenta mais um neurônio,
extravasa e dispersa na sinapse

dos vômitos... são impulsos
entre dores elaboradas
de vômito com linhaça.
cansada deste e de ouros de odores
ressente, quase incontrolável
e cabeça para baixo, quando
(des)equilibrada.

com receio de formiga esquizóide que ama...


9.

catadores de poesia em becos excomungados
estão alojados em sexo de Funisia dorothea.

restam os fósseis de uma rainha da idade da pedra
estampa-predação de olhos milimétricos,

pelo ódio-listerina, solto no espaço
para ambientar este clima
tropical...


10.

existe um homem alojado na coluna da jangada/ no pescoço da barriga-listrada. dentro do ovo da canária. em um ninho em forma de taça, entre a espuma....

ele eclodira endez, corpo-homem-cara...e canário.

dentro da garrafa, a herança herbácea no escoamento de água, no represamento, da vazão do outro.

em um solo mais seco, o pastoreio, seus filhotes-canórus e sua mãe estufa por cada uma das ilhotas amarescentes...



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            vídeoartepoesiadrops [fragmentos]
 
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Postado originalmente no dia 16 de Abril de 2020 às 10:40

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