Octavio Paz traduzido por Haroldo de Campos

por Octavio Paz


Desde 1968 Haroldo de Campos manteve uma correspondência com Octavio Paz e, além de ter sido um leitor voraz de seus ensaios, o poeta concretista foi pioneiro na tradução da obra desse importante autor mexicano e, consequentemente, da divulgação de sua poesia em terras brasileiras. Em seu poema Galáxias, Campos dialoga com o emblemático poema 'Blanco' de Octavio devido a herança de Mallarmé que ambos os poemas trazem em seu bojo. Encontram-se também correspondências e influências recíprocas entre esses dois poetas em alguns trabalhos. Um exemplo disso é a obra de Octavio entitulada 'Discos Visuales' que flerta fortemente com o concretismo. Um intenso e muito profícuo diálogo que nos rendeu traduções extremamente importantes. A revista POESIA AVULSA fez uma pequena, mas muito representativa, coletânea de poemas de Octavio Paz traduzidos por Haroldo de Campos. Boa leitura!          

 

 

 


destino do poeta

Palavras? Sim, De ar
e perdidas no ar.
Deixa que eu me perca entre palavras,
deixa que eu seja o ar entre esses lábios,
um sopro erramundo sem contornos,
breve aroma que no ar se desvanece.

Também a luz em si mesma se perde.



em uxmal

1. Templo das tartarugas

Na esplanada vasta como o sol
repousa e dança o sol de pedra,
desnudo frente ao sol, também nu.

2. Meio-dia

A luz não pestaneja,
o tempo se esvazia de minutos,
um pássaro se deteve no ar.

3. Mais tarde

Despenha-se a luz,
despertam as colunas
e, sem mover-se, dançam.

4. Pleno sol

A hora é transparente:
vemos, se o pássaro é invisível,
a cor do seu canto.

5. Relevos

A chuva, pé dançante e cabelo solto,
o tornozelo mordido pelo raio,
desce acompanhada de tambores:
a espiga abre os olhos, e cresce.

6. Serpente lavrada sobre um muro

O muro ao sol respira, vibra, ondula,
lanço de céu vivo e tatuado:
o homem bebe sol, é água, é terra.
E sobre tanta vida esta serpente
levando uma cabeça entre suas fauces:
os deuses bebem sangue, comem homens.



arcos
a Silvina Ocampo

Quem canta nas ourelas do papel?
De bruços, inclinado sobre o rio
de imagens, me vejo, lento e só,
ao longe de mim mesmo: ó letras puras,
constelação de signos, incisões
na carne do tempo, ó escritura,
risca na água!

         Vou entre verdores
enlaçados, adentro transparências,
entre ilhas avanço pelo rio,
pelo rio feliz que se desliza
e não transcorre, liso pensamento.
Me afasto de mim mesmo, me detenho
sem deter-me nessa margem, sigo
rio abaixo, entre arcos de enlaçadas
imagens, o rio pensativo.

Sigo, me espero além, vou-me ao encontro,
rio feliz que enlaça e desenlaça
um momento de sol entre dois olmos,
sobre a polida pedra se demora
e se desprende de si mesmo e segue,
rio abaixo, ao encontro de si mesmo.



frente ao mar

1

Chove no mar.
Ao mar o que é do mar
e que as herdades sequem.

2

A onda não tem forma?
Num instante se esculpe,
no outro se desmorona
à que emerge, redonda.
Seu movimento é forma.

3

As ondas se retiram
- ancas, espáduas, nucas -
logo voltam as ondas
-peitos, bocas, espumas.

4

Morre de sede o mar.
Se retorce, sozinho,
em sua cama de rochas.
Morre de sede de ar.


__

 

 

 



Postado originalmente no dia 5 de Maio de 2020 às 09:18

Leia também



5 poemas e 5 fatos

por Ana Cristina Cesar



Leia +

Uma nova declaração de amor

por Adriano B. Espíndola Santos



Leia +

Poemas de Luta e de Terra

por Patativa do Assaré



Leia +