casé lontra marques: cinco poemas escolhidos

por Casé Lontra Marques


 

Casé Lontra Marques nasceu em 1985, em Volta Redonda (RJ). Vive em Vitória (ES), onde cresceu. Publicou Desde o medo já é tarde, O que se cala não nos cura e Enquanto perder for habitar com exatidão, entre outros livros.

 

 

 

 

 

Para estancar a letargia

 

 

 

 

 
A rebelião nos regenera,
desengessando o pulso do sal sobre
uma cicatriz
arboreamente insaciável;
nos ossos, os olhos
do vento
— que se aninha (sem
nódulos,
sem enigmas) onde
mais
lateja: para estancar
a letargia,
tecemos — entre frestas —
um ato
cujo embrião prospera
em
ambiente áspero.
 
 
 
 
Ficar onde faz barulho
 
Ficar onde faz barulho,
no nervo
do desentendimento — a boca
encharcada
de dentes, interrogando
uma exaustão:
a mancha no caminho
da saliva e o diafragma
afundado
querem (hoje querem)
exigir um corpo
para outra
pele.
 
 
 
 
Oxigênio por mais tempo
 
Durante uma rebelião que prometia
ser tensa mas se mostrou insuperável,
perdi o apego
a um nome e pouco importava reter
ou desperdiçar
oxigênio por mais tempo —
o último resquício
de ansiedade já vinha
falindo no fundo
dos ouvidos.
Meus antepassados são minhas crias:
ninguém em mim
abdicou de me abolir. Existiria,
tanto antes quanto agora;
existiria
desejo distante
da deriva?
 
 
 
 
Praticar uma saúde percussiva
 
Com o tempo, desanimei
de desistir
— a linguagem nos cadencia
(e alarga),
nos cativa (e
alarma):
perder o rosto na multidão
é praticar
uma saúde
percussiva — expelindo
ou
explorando o que
houver de
asma.
 
 
 
 
Parar de cair
 
Quem aqui não queria
parar de cair
um dia? Gasolina dilata
(gasolina
dissolve) as narinas —
seiva
bruta. Sobreviver
sempre tumultua.
 
 
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Postado originalmente no dia 19 de Junho de 2019 às 11:40

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